sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Entrevista Expedito Barreira

Bom dia!

Hoje, teremos no Tocando em Você, das 18:30 às 21h, o evento Sexta com Arte, com apresentações de música, dança, teatro, e muito mais! E como parte da programação, teremos leitura dramática do texto "Pé de galinha não mata pinto: como conviver com o casamento", com o ator Expedito Barreira.

Expedito é um ator experiente que dará aulas de teatro no nosso espaço à partir do dia 26 de setembro, e hoje apresentará um pouco de seu trabalho. Abaixo, uma entrevista que fizemos com ele, para vocês conhecerem um pouco mais de nosso mais novo professor, que se diz bastante esperançoso com esse curso, na esperança de que possa mexer com as pessoas.






Sobre sua carreira no teatro

Comecei a fazer teatro por acaso. Por volta de 1965, 1966, dei baixa no quartel em que servi, e não tinha nenhuma perspectiva profissional. Não sabia realmente o que fazer. Um dia, vendo o jornal, vi falarem sobre o Conservatório Nacional de Teatro. Pensei “O que é isso?”. Não sabia o que fazer com minha vida, então fiz um curso preparatório para entrar no Conservatório. Fiz a prova e passei. Cursei por um tempo, mas precisava de dinheiro, então fui trabalhar e tranquei matrícula. Por volta de 1976, 1977, eu estava infeliz, não estava leve, e resolvi fazer unificado. Isso porque a mosquinha azul tinha me mordido lá atrás, em 66, 67, eu achei maravilhoso trabalhar com esse corpo, emprestá-lo para várias personagens. É uma brincadeira maravilhosa no sentido de desenvolver e buscar em você coisas desconhecidas, é sempre uma surpresa. Fiz prova pra faculdade de teatro, passei e comecei a fazer o curso de interpretação. A partir daí foi direto, não conseguia pensar em outra coisa a não ser teatro.
Em 76, 77, no meu primeiro ano de faculdade de teatro, um amigo meu estava fazendo assistência de direção para o Reginaldo Faria em um filme chamado “Barra Pesada”, que também tinha o Stepan Nercessian, e fiz esse filme. Daí, vim fazendo sempre. Faculdade se faz em quatro anos, e eu fiz em doze por causa dos trabalhos, trancava a matrícula.
Ainda na faculdade, em 1978, fiz um trabalho com direção do Roberto Frota chamado “O Dia da Caça”, um texto de José Louzeiro. Era Jorge Ramos, Expedito Barreira e Antonio Pompeu. Fizemos esse espetáculo, foi maravilhoso. Yan Michalski e a classe toda foram assistir no dia de estreia. Eu tive que decorar o texto em duas semanas porque era uma substituição, e era uma hora e meia de espetáculo, sem intervalo, os três em cena o tempo todo, texto direto. Mas quando se está começando, você quer fazer tudo, aceita tudo. Arrumaram um ponto eletrônico pra mim, a antena circundava o palco, que era uma arena no Teatro Opinião, em Copacabana. Mas lotou o teatro, as pessoas chutaram a antena, ela estourou. O espetáculo tava correndo e eu tinha um código com o diretor de olhar pra ele e fazer um determinado gesto, pra ele me passar pelo ponto eletrônico. Eu pedi a primeira vez, não veio. Pedi a segunda, não veio. Me deu um desespero. Teatro lotado com a crítica toda. Aí tive que fazer. E fiz. E foi ótimo. Quando a crítica saiu, fui indicado como uma revelação do ano pelo Yan Michalski do Jornal do Brasil, que era um papa.
E aí vim fazendo. Tive graças de encontrar pessoas maravilhosas ao longo desse tempo de trabalho. Alcione Araújo criou um projeto sobre leituras dramatizadas de autores nacionais e estrangeiros no BNDS. Ficamos trabalhando lá fazendo essas leituras por pelo menos quatro anos. Estar ao lado de Alcione Araújo com textos, lendo, discutindo, aprendendo, é uma pós graduação. Aprendi muito teoricamente e também prática, porque uma leitura não é nada mais que o primeiro estágio para pisar no assoalho, pra começar as marcações, etc. E aí foi maravilhoso. Trabalhar com Aderbal Freire Filho... Também tive o prazer de conhecer e me divertir com Amir Haddad, que é um cara muito aberto, com uma visão de mundo interessantíssima, um diretor que te provoca. Aí vim fazendo essas coisas todas.
Também dei cursos, formei duas turmas em um curso profissionalizante da Rosane Gofman, fui convidado por José Louzeiro pra fazer uma direção com formandos da CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Na CAL, todo final de ano escolhiam um diretor pra fazer uma montagem profissional. Essa turma escolheu “A Gangue do Beijo”, um livro do José Louzeiro, para adaptar, e ficamos trabalhando praticamente oito meses adaptando aquilo em grupo. É uma confusão danada porque é uma turma opinando, escrevendo, se negando. E você que tá na coordenação não pode açambarcar tudo aquilo. Intuitivamente, deleguei coisas, senão iria enlouquecer.

Sobre trabalhar com Gianni Ratto

Gianni é uma cultura ambulante. Ele não precisa falar, você olha por Gianni e dá vontade de ficar abraçado com ele, tentando puxar aquela energia da história do teatro. Conhece tudo, absolutamente tudo de teatro. É uma pessoa muito simples, sem elucubrações teatrais. Fiz com ele uma produção de Herson Capri chamado “Ladrão que Rouba Ladrão”, um texto de Dario Fó e Gianni dirigiu. Uma pessoa muito aguçada por todo tempo de experiência que tem. Muito divertido, um humor maravilhoso, vivíssimo. Inteiro, absolutamente dinâmico no processo e no raciocínio. Uma vez, no ensaio, brinquei e fiz um falsete com a voz. As pessoas riram, mas foi um choque no elenco porque as pessoas não arriscam perto desses “medalhões”. Mas ele me olhou e disse que sim, pra eu caminhar por ali e manter o falsete. Porque o diretor precisa que o ator dê. O que às vezes atrapalha é que você se castra.
Aderbal Freire Filho e Alcione Araujo são pessoas que você desiste se tiver como objetivo irritá-los. São muito cavalheiros, inteligentes, seguros, sabem exatamente o que querem. Deixam você experimentar e depois dizem pra você porque não pode ser assim de uma maneira surpreendente. E Gianni tinha essa característica, esse domínio dos mestres. É surpreendentemente simples, que é a grande verdade de quem sabe. O processo dele, as brincadeiras dele, eram muito legais. Ele trocava, às vezes, algumas cenas, para subverter a ordem da história com muita segurança. Era um grande amigo, um irmão mais velho.

Sobre o que aprendeu com os grandes diretores que trabalhou

O método você desenvolve a medida que absorve de um e de outro, e eu acho que a técnica acontece no momento. Ela tem muito isso teatralmente. Porque você pode pegar Stanislavski, por exemplo, e desenvolver seus exercícios e técnicas e levar para o palco, o que eu acho interessantíssimo. Stanislavski é uma benção, os métodos dele são maravilhosos. Mas essa absorção é que te faz desenvolver um processo técnico de trabalho. Aderbal, por exemplo, com quem fiz “A Bandeira dos Cinco Mil Réis”, tinha um processo de improvisação anterior às leituras. Um dia, ele apareceu com um pano e disse que era um circo. Um ator em processo de trabalho, achando que vai chegar, abrir um texto, ler, discutir ou fazer algum exercício, e ele te joga um pano e diz “Vamos fugir com o circo”. E todos seguravam aquele pano pra fugir com o circo. E o que era fugir com o circo? Era fugir com alguma ideia? Era caminhar para o crescimento da personagem? Era pra contracenar mais efetivamente com alguém que vai, no texto, ter uma relação mais forte com você? Era isso. A técnica é essa. Se tem uma resposta pra isso, é a técnica da surpresa enquanto você está pisando no assoalho. Eu não sei o que é, mas vou fazer e de repente dá certo. Você tem que se soltar ali, tem que se largar mesmo. Porque, a partir desse processo, mesmo você errando, esse processo técnico é interessante, porque esse erro que vai dar informações à direção de como conduzir, como você reage.
Você precisa ser muito perspicaz para poder ter um processo de direção, de aulas. Porque você faz um trabalho de psicologização também. Você precisa saber quem é mais histriônico e pode vir até a atrapalhar o processo de trabalho por isso. Quem é muito contido e acha que não vai conseguir. Fazer um trabalho de voz, de sonorização, que é muito simples. Então eu acho que eles me ensinaram foi essa coisa de “mostrar o que você pode fazer”. Então venha com seus erros, venha com seus acertos, pragente poder, a partir daí, criar uma técnica para o desenvolvimento do trabalho, aprender com você. É uma técnica interessante.

Sobre o curso de Ofício Teatral

A duração do curso é de três meses e em três meses você não pode fazer muita coisa. O que você pode fazer é provocar pessoas a virem, mais na frente, fazer um curso maior para uma montagem. O objetivo, na verdade, é pegar pessoas com diferentes graus de informação e de faixas etárias diferentes, que é o ideal. Você trabalha com uma senhora de 60 anos e trabalha com uma menina de 15 anos, e de repente coloca esses dois seres humanos com essa diferença de idade numa proposta de trabalho, e elas aprenderão muito uma com a outra. É uma coisa interessante essa diferença de idade.
Mas eu pretendo provocar essas pessoas e, no processo e andamento de trabalho, desenvolver com els exercícios de teatro básicos, passando pelo conhecimento do corpo, que é o seu instrumento de trabalho. O instrumento de trabalho do ator é o corpo, o raciocínio. Tentar mostrar pra eles que, pra você fazer um trabalho de interpretação, você precisa ser muito generoso. Por exemplo, para você interpretar o Hitler, que foi um assassino cruel, você tem que gostar da personagem senão ela não vai acontecer. E é muito doloroso você gostar de um Hitler. Mas você como ator, precisar gostar, entender, e defender essa personagem. Você não pode criticar essa personagem em momento algum, senão ela não ai acontecer. O público vai perceber que aquela personagem que você está fazendo não presta porque você acha que ela não presta. Então trabalhar e mostrar que o teatro é feito e desenvolvido a partir deste instrumento de trabalho do ator que é o corpo.Desenvolver com eles um processo aonde eles possam me trazer ideias de montagem de esquetes. Essas esquetes são escolhidas em consenso e é desenvolvido um trabalho aonde eles vão escrever sobre o tema que eles escolheram para uma improvisação, que depois vai virar uma esquete que será apresentada para o grupo e poucos convidados. Porque isso é muito sensível. É preciso muita coragem para você, que não tem experiência nenhuma em teatro, se expor. Então isso precisa ser conduzido com muito cuidado para não machucar as pessoas, não inibir futuramente. Mas ao mesmo tempo que três meses é um tempo curto, também é um tempo razoável para fazer essa provocação.
Eu tenho como meta também puxar pessoas do nosso cotidiano, e não só pessoas que leem, estudam, e tem interesse pelo teatro. As pessoas precisam disso. Um dia desses, estava em um bar vendo umas coisas de teatro e a mocinha que serve puxou papo comigo e eu contei sobre o curso e ela explodiu, queria fazer. Então as pessoas estão aí, elas não estão dentro, elas estão fora também. Muito mais fora. E tem que procurar essas pessoas.Mas tem que fazer uma coisa de cada vez. Dá o curso, esse curso vai evidentemente ter uma repercussão. As pessoas fazem o curso, comentam que é péssimo ou que é ótimo. E vem, aparecem, trazem pessoas, e isso que faz o burburinho.

Sobre futuros projetos

Estou fazendo um esboço de uma história de minha vida na adolescência, mas estou escrevendo sem nenhum compromisso.
Também vou fazer uma leitura de um texto de um conhecido meu que é “Pé de Galinha não Mata Pinto” que é sobre a convivência no casamento. Ele se propõe a informar o que você tem que fazer para o casamento dar certo. Basicamente diz que, para o casamento dar certo, você não pode morar junto de jeito nenhum, nunca. E pretendo, a partir desse texto, fazer uma leitura e chamar as pessoas para assistir a um preço módico. É interessante porque fico tendo a opinião dessas pessoas. E, a partir aí, quero montar um monólogo. É um monólogo curto, simpático. Montar em algum lugar e provocar outras coisas, provocar a idade simpática. E fazer cursos para essas pessoas, pessoas de 50, 55 anos, que já criaram os filhos, estão criando os netos, mas estão um pouco de saco cheio, querem ir à luta, fazer cursos diferentes. Eles vem carregados de energia, informação, queixas. E aí trazem muito material, escrevem muito bem. Porque você devolve pra esse ser humano, permite que ele coloque suas experiências, dúvidas, acertos. E eu gostaria muito de ter esse curso aqui com a idade simpática.



Gostou? Então ligue para cá e se inscreva no curso! Tel. 2567-4378.




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